Na última quinta-feira, dia 15 de abril de 2010, no Campus I da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, a ONG Pierre Bourdieu deu início ao seu primeiro ciclo de entrevistas com os Pró-reitores da Universidade, contando com a participação da Profa. Adriana Marmori, Pró-reitora de Extensão da UNEB. Na entrevista foram abordadas diversas temáticas que se referem direta e indiretamente à questão da extensão universitária nos âmbitos nacional e estadual.
(ONG Pierre Bourdieu)
Qual a sua avaliação sobre a extensão universitária na UNEB, nos últimos quatro anos?
(Profa. Adriana Marmori)
Não se pode fazer uma avaliação dos últimos quatro anos, sem pensar a história da extensão na UNEB. Deve-se ressaltar a representação e o trabalho que foi feito anteriormente pelo Prof. Valentim, na época, Pró-Reitor de Extensão da UNEB. Nos últimos anos, a extensão foi consolidada do ponto de vista das ações desenvolvidas não só na capital, mas em todos os lugares onde a UNEB está inserida, sempre com o objetivo de trabalhar os aspectos sociais na Universidade. Do trabalho realizado, destacam-se projetos, por exemplo, de atenção especial ao estudante da UNEB na perspectiva de construção do programa de assistência estudantil e a proposta de criação da Pró-reitoria de Assistência Estudantil, com o intuito de fortalecer o papel do estudante na Universidade.
Outro destaque relevante foi a ampliação dos convênios com as Secretarias de Governo e com os Ministérios para desenvolvimento de programas de educação, cultura e meio ambiente. Conseguimos construir uma relação de confiança com o Governo do Estado através do trabalho que a extensão universitária empreende. Atuamos junto aos mais diferentes públicos no estado da Bahia, fortalecendo a diversidade. Conseguimos atingir um total de 2.400.000 beneficiados dos programas de extensão em 2009 e a idéia é ampliarmos ainda mais o trabalho primando pela qualidade e seriedade universitária.
(ONG Pierre Bourdieu)
Qual a importância da extensão universitária para a UNEB?
(Profa. Adriana Marmori)
Eu acredito que a extensão para a UNEB é o que a caracteriza enquanto uma Universidade cidadã. A partir do momento que os estudantes, professores e técnicos entendem a extensão enquanto um processo de interação da universidade com a comunidade externa, tanto para a produção quanto para a apropriação de conhecimentos, a Universidade também se transforma. A UNEB está presente geograficamente em 18 territórios de identidade do Estado e, por isso, tem o papel mais fortemente ancorado no espírito extensionista, chegando aos lugares mais distantes para trabalhar não só a graduação, mas também a pesquisa e a extensão, de forma articuladas, a torna potencialmente forte para contribuir para o desenvolvimento social da Bahia.
(ONG Pierre Bourdieu)
Qual a importância da UNEB em apoiar projetos sociais?
(Profa. Adriana Marmori)
A Universidade demonstra o seu apoio, na medida em que ela reconhece que a sociedade necessita de atenção e de políticas públicas nas diversas áreas. Cientes do nosso papel enquanto Universidade buscamos uma aproximação com todas as organizações que têm o mesmo foco de compromisso com as minorias, seja para que os grupos sociais coletivamente reflitam sobre suas demandas , identifiquem os mecanismos de diálogo e criticamente transformem a sociedade em que vivem. Acredito que apoiar projetos sociais traduz essa responsabilidade que assumimos, de Universidade que se preocupa com a melhoria da qualidade de vida das pessoas. O apoio não vem exclusivamente no sentido de chancelar cursos ou de apoiar inatitucionalmente determinadas ações, mas no sentido de pensar de forma coletiva sobre as alternativas que possam ser implementadas para melhorar a situação que aí está. Esse apoio não é unilateral, mas sim uma relação de reciprocidade que é estabelecida com diversos programas sociais a exemplo da oferta de cursos de línguas, pré-vestibulares , dentre outros.
(ONG Pierre Bourdieu)
Historicamente, a extensão sempre foi muito marginal dentro das universidades, em que pese a UNEB estar a frente desta discussão, desde a gestão do Prof. Valentim, hoje Reitor da Universidade. Com a construção do Plano Nacional de Extensão Universitária, a questão da extensão passou a ser muito mais discutida nas instituições de ensino superior. De que forma a Sra. analisa essa transformação?
(Profa. Adriana Marmori)
A extensão universitária nasce justamente porque a pesquisa e o ensino não conseguem dar conta de transpor os muros da Universidade. A Universidade é criada com o intuito de poder contribuir de certa forma com a sociedade. A extensão universitária foi extremamente marginalizada durante muito tempo, porque ela assumia um papel apenas de prestadora de serviço e para a Academia a prestação de serviço não tinha uma relação íntima com a produção acadêmica e científica. A partir das discussões e da construção do Plano Nacional de Extensão Universitária, que define princípios, diretrizes, eixos temáticos de atuação da extensão, ela começa a ter um destaque no âmbito das Universidades enquanto um espaço também de produção acadêmica. A partir daí, podemos perceber que trabalhar com a sociedade nesta relação de troca de conhecimentos, também fortalece a Universidade do ponto de vista científico ao mesmo tempo em que contribui para as mudanças na sociedade. Quando a extensão é entendida, enquanto este processo amplo de trocas culturais, educacionais que traz uma relação de mão dupla com a comunidade, ela se destaca. A Universidade do Estado da Bahia possui uma atuação neste sentido, ela evidencia que a extensão não é apenas uma transferência do que é construído na Universidade, mas a Universidade também aprende muito com as comunidades, dentro de um processo dialético. O Plano Nacional de Extensão Universitária contribuiu muito para fortalecer o papel da extensão, mas ainda assim conseguimos visualizar alguns pontos que não foram solucionados, como, por exemplo, verbas para execução de projetos de extensão, o reconhecimento da produção de docentes e estudantes na área de extensão, enquanto uma produção científica. Estas são lutas históricas e, que deverão perdurar por muito tempo até que todos compreendam realmente o importante papel da extensão universitária.
(ONG Pierre Bourdieu)
Como a Sra. avalia a extensão universitária no Brasil e na Bahia?
(Profa. Adriana Marmori)
Estamos atualmente, reconstruindo o Plano Nacional de Extensão Universitária, no contexto nacional, a partir das discussões do FORPROEX uma vez que o plano foi produzido e implementado no ano de 2001 e de lá pra cá, muitas transformações sociais, políticas e econômicas tem acontecido. Questões sobre o trabalho com a diversidade cultural, a redefinição do próprio conceito de extensão, a gestão da extensão nas universidades públicas, o financiamento da extensão e a responsabilidade social das universidades são alguns dos itens que estão no centro desse trabalho de reformulação. Acredito que este processo, de certa forma vai influenciar a mudança de postura também no âmbito da Bahia. Há quatro meses fundamos o Fórum de Pró-reitores de Extensão das Universidades públicas da Bahia, do qual faço parte como coordenadora, temos nos reunido mensalmente, discutido sobre a extensão nas nossas Universidades, encaminhando propostas junto aos órgãos de fomento, voltando o nosso olhar para a educação, o meio ambiente, a cultura, a tecnologia, os direitos humanos, enfim, para todos os eixos de atuação da extensão universitária da Bahia para que o diálogo com os diversos espaços que pensam sobre as políticas públicas do nosso Estado possam unir seus esforços aos das universidades no sentido de colocar as tecnologias sociais disponíveis a serviço do povo.
(ONG Pierre Bourdieu)
Quais são os principais programas e projetos de extensão promovidos pela UNEB?
(Profa. Adriana Marmori)
A UNEB hoje tem vários programas e projetos sendo desenvolvidos. Eminentemente da UNEB, podemos destacar a Universidade Aberta Terceira Idade, que nos últimos anos teve uma grande atuação não só aqui em Salvador com mais de seiscentos matriculados, mas também com a implantação do programa em quinze Departamentos onde a UNEB está inserida. Um projeto fantástico de educação e atenção à pessoa idosa. Temos mais de quatrocentos e dezenove projetos sendo desenvolvidos nos diferentes departamentos sob a coordenação dos professores extensionistas e monitores de extensão. Junto aos órgãos Federais e Estaduais, em parceria com as Secretarias do Estado, coordenamos e implementamos ações de programas importantes, onde assumimos praticamente 80% do quantitativo de público atendido na Bahia, a exemplo do TOPA (Todos Pela Alfabetização) onde nos responsabilizamos pela formação dos professores alfabetizadores. Temos ainda, a Universidade Para Todos que este ano terá mais de treze mil jovens envolvidos, o Pró-Jovem, onde atuamos com o Pró-Jovem do campo e urbano e, uma grande atuação na área de educação profissional e qualificação para o trabalho, a exemplo do A Bahia é mais verão / qualificação com a SETUR (Secretaria de Turismo). Assumimos em parceria com o INCRA, o PRONERA (Programa Nacional em Área de Reforma Agrária) com uma grande atuação junto aos movimentos sociais assentados e acampados. Desenvolvemos um projeto de preparação para concursos em parceria com a SETRE e Fundo de Combate à pobreza denominado Afirmativo. Enfim, muito trabalho, de grande responsabilidade e o melhor de tudo, o que nos orgulha sempre, a certeza de estarmos contribuindo com resultados positivos para minimizar os índices de desigualdades sociais no nosso Estado da Bahia.
Temos também um projeto importante que hoje é destaque não só na Bahia, mas tem uma atuação em todo o território nacional, que é a formação de professores a distância para trabalhar com pessoas com deficiência. Este projeto é financiado pelo MEC e tem a coordenação da UNEB através do Núcleo de Educação Especial. Temos atuado em programas importantes e para que eles aconteçam, nós precisamos do envolvimento e do engajamento dos professores, dos estudantes, em suma, da comunidade acadêmica. A extensão universitária nos ensina muito, principalmente a refletir um pouco sobre o nosso papel enquanto cidadão. Pois, na medida em que conhecemos de perto cada projeto, cada programa, cada curso e, acompanhamos seus resultados e os impactos destes junto à vida das pessoas beneficiadas, nos percebemos atores e ao mesmo tempo chegamos à conclusão que ainda temos muito a fazer. As demandas sociais são muitas e complexas, nós não assumimos o papel de Estado, mas assumimos sim o papel de Universidade, na perspectiva de contribuir com esta sociedade, tanto na reflexão sobre nossas vidas, quanto na mudança de nossa história. Espero que possamos firmar novas parcerias, inclusive com a ONG Pierre Bourdieu, para continuar desenvolvendo esse trabalho grandioso que é a extensão universitária.