Um Pouco da Trajetória de Pierre Bourdieu: segundo suas obras e biografia publicadas.
17.12.2009
De
acordo com os expoentes Bourdieu (2000, 1999, 1998, 1996, 1992 e 1990),
Weissheimer (2002), Ortiz (1983), Wacquant (2002), entre outros, Pierre Bourdieu
foi diplomado pela Escola Normal Superior, considerada instituição de maior
prestígio na área das letras e da filosofia, de onde foram egressos Jean Paul
Sartre, Simone Beauvoir, A. Camus, R. Aron, dentre outros intelectuais de
após-guerra. Apesar de ter sido egresso de uma Instituição tope de linha,
Bourdieu não se deixou encantar como tantos outros da sua geração ou da
precedente. Cumpriu o serviço militar, em plena guerra, na Argélia, exercendo
neste país o labor professoral.
Todavia, passou a voltar-se paras as questões da agricultura argelina; a
transição do sistema tradicional ao capitalismo moderno estava em ebulição
naquele país. Neste período de crise ele se associou a Abdelmaleck Sayad, a fim
de aprofundar os estudos sobre a emergência do capitalismo e as transformações
no espírito da organização social e política da sociedade argelina.
Os mencionados estudos iniciaram-se nos anos 60 e terminaram com o
desaparecimento de Sayad. A partir das leituras empreendidas, considera-se que
esse fora um período exitoso para Bourdieu, o qual escrevera uma abundância de
obras, cujas publicações aparecem posteriormente, dentre essas, citam-se:
Sociologia da Argélia (1958), Argélia ano 60 (1977), Le Déracinement (1964),
Trabalho e trabalhadores na Argélia (1963).
Ressalte-se que em Trabalho e Trabalhadores na Argélia, Bourdieu desenvolveu um
dos conceitos-chave de sua teoria, marcando, de maneira profunda, a sociologia
tanto para utilizá-lo quanto para criticá-lo: o conceito de habitus. O artigo
sobre o Celibato e a condição camponesa (1962) desvela o mecanismo sutil que
transforma as modalidades de reprodução social e biológica. Depreende-se da
obra, com apoio em Bourdieu e Miceli (1997), que a análise dos arranjos
familiares fazem do casamento uma forma de sobrevivência no sistema de relações
sociais e econômicas.
Extrai-se do referido artigo, segundo Ortiz (1983), a comparação que Bourdieu
faz entre o sistema de arranjos familiares na Kabilia (Argélia) e no Béarn, sua
região natal. Sem dúvida alguma, com sua estada na Argélia, o autor Bourdieu se
torna verdadeiramente sociólogo e etnólogo. Para reforçar esta assertiva, em sua
última aula, no Colégio de França, Bourdieu evocara fatos ou idéias que nasceram
quando de sua passagem naquele país, marcando toda sua teoria.
Frise-se que o conceito de habitus, o qual ele desenvolvera ao longo da sua obra
corresponde a uma premissa, determinada pela posição social do indivíduo que lhe
permite pensar, ver e agir nas mais variadas situações. O habitus traduz os
estilos de vida, julgamentos políticos, morais, estéticos. Assim, a obra pode
ser concebida como um meio de ação que permite criar e desenvolver estratégias
individuais ou coletivas.
De volta à França, Bourdieu torna-se assistente na Universidade de Lille e, em
1964, é eleito professor na atual Ecole des Hauts Etudes en Sciences Sociales.
Começa um período intenso de trabalhos sobre o ensino universitário em parceria
com Jean Claude Passeron; ambos eram filósofos, tornando-se sociólogos, também,
pela influência de Raymond Aron, na medida em que eram alunos deste.
Frise-se que Bourdieu e Passeron colocaram em dúvida uma das idéias mais tenazes
da ideologia republicana: a igualdade de oportunidades e a importância do
sistema escolar para garantir igualdade social a todos. É o próprio fundamento
da sociedade meritocrática que eles criticaram, assim como o sistema de ensino
considerado como a ponta de lança dessa ideologia. Eles apresentaram Les
Héritiers (1964), na editora Minuit, na qual Bourdieu dirigira à coleção Le sens
commun, onde vários autores estrangeiros e franceses se tornaram conhecidos no
campo das ciências sociais.
Na supramencionada obra, os autores chamam a atenção para a relação entre o
capital cultural, a relação social e escolar. O conceito de capital cultural é
utilizado para se distinguir do capital econômico do capital social. Os
estudantes de classe média ou da alta burguesia, pela proximidade com a cultura
erudita, pelas práticas culturais ou lingüísticas de seu meio familiar, têm mais
probabilidades de obter o sucesso escolar. "O que Bourdieu demonstrara é que
existe relação entre a cultura e as desigualdades escolares: a escola pressupõe
certas competências que são de fato adquiridas na esfera familiar" (BAUDELOT,
2002, p. 78).
Cabe registrar que o sucesso com a obra Os herdeiros e as críticas que recebeu,
sobretudo do meio de professores ou de responsáveis pelas instâncias políticas,
fazem com que ele se interesse em analisar as modalidades de funcionamento
interno do sistema de ensino. Bourdieu e Passeron elaboraram uma obra relevante
em sociologia da educação, tanto pelas afirmações que propõem quanto pelas
críticas que eles suscitam.
Cabe relembrar que a obra La Reproduction (1970) contém um subtítulo importante
Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Contrariamente à idéia mais
divulgada que faz da escola um reflexo e um instrumento da reprodução social, a
obra da Reprodução tenta desenvolver a noção da violência simbólica. De fato,
ele expõe aí os determinismos e a força da coação social, o que causa inúmeras
críticas, principalmente no meio professoral (sindicatos, associações etc.).
Mediante o uso da noção de violência simbólica ele desvenda o mecanismo que faz
com que os indivíduos vejam como natural as representações ou as idéias sociais
dominantes. A violência simbólica é desenvolvida pelas instituições e pelos
agentes que as animam e sobre a qual se apóia o exercício da autoridade.
Assente-se que Bourdieu considera que a transmissão pela escola da cultura
escolar - conteúdos, programas, métodos de trabalho e de avaliação, relações
pedagógicas, práticas lingüísticas –, própria à classe dominante, revela uma
violência simbólica exercida sobre os alunos de classes populares.
Observa-se que a dominação que recobre formas variadas de relações de poder,
Bourdieu focaliza a forma a mais insidiosa exercida pela violência simbólica. No
livro sobre Les héritiers ele releva que o sucesso escolar é condicionado à
origem social dos alunos e, assim, torna-se o primeiro a revelar os mecanismos
cognitivos ligados às condições sociais. O termo violência simbólica aparece
como eficaz para explicar a adesão dos dominados: dominação imposta pela
aceitação das regras, das sanções, a incapacidade de conhecer as regras de
direito ou morais, as práticas lingüísticas e outras.
É bastante claro nas suas obras e na biografia elaborada por expoentes da área
e/ou seus adeptos que Pierre Bourdieu elaborou, assim, um sistema teórico que
não cessou de desenvolver: as condições de participação social baseiam-se na
herança social. O acúmulo de bens simbólicos e outros estão inscritos nas
estruturas do pensamento (mas também no corpo) e são constitutivos do habitus
através do qual os indivíduos elaboram suas trajetórias e asseguram a reprodução
social. Esta não pode se realizar sem a ação sutil dos agentes e das
instituições, preservando as funções sociais pela violência simbólica exercida
sobre os indivíduos e com a adesão deles.
Conforme afirma Weissheimer (2002), como intelectual engajado, o autor em tela é
sempre comparado a Sartre ou a Foulcaut. Entretanto, em várias ocasiões,
Bourdieu se referiu a Jean Jacques Rousseau como sendo símbolo do intelectual:
de aprendiz de relojoeiro em Genebra, ele revolucionou a literatura social,
inventando novos conceitos em filosofia política.
Cabe enfatizar que Bourdieu foi o único escritor clássico francês que não teve
origem burguesa ou aristocrática; talvez por isso ele foi rejeitado por todos os
intelectuais da época. Rousseau, entretanto, criou um modo de intervenção do
filósofo no mundo social, pelo combate contra "as desigualdades entre os
homens".
Extrai-se de sua biografia que o filósofo e sociólogo em tela desenvolveu, ao
longo de sua vida, mais de 300 trabalhos focando a questão da dominação e é, sem
dúvida, um dos autores mais lidos, em todo o mundo, nos campos da Antropologia e
Sociologia, cuja contribuição alcança as mais variadas áreas do conhecimento
humano, discutindo em sua obra temas como educação, cultura, literatura, arte,
mídia, lingüística e política.
Segundo Zamorano (2008, p. 34), Bourdieu continua a suscitar um enorme debate,
uma freqüente controvérsia e, claro, uma crítica permanente. Dos estudos pode-se
asseverar que o Bourdieu tinha com uma consistente prática A partir de um
conceito de chave mestra, que é o da de pesquisa empírica; o qual jamais fez da
sociologia uma instância de autoridade acima de si e da sua forma de pensar a
sociedade. Infere-se, sem sobra de dúvida, que Bourdieu jamais trocou a
sociologia de terreno pela opinião - sistematicamente doutrinal - disfarçada de
sociologia. Em suas obras e trajetória percebe-se que o cientista nunca escondeu
o ativismo social em prol dos oprimidos de todos os tipos. Pierre Bourdieu
morreu no dia 23/01/2002, no hospital de Paris, em decorrência de um cancro, aos
71 anos de idade.
Talvez pelo seu trabalho, estudos e práticas que a Pierre Bourdieu – entidade
não governamental, sem fins lucrativos, estabelecida em Salvador, na Av. Sete de
Setembro, em frente ao Hotel Tropical, Salvador (BA) -, vem desenvolvendo ações
dignas de elogios, contra as desigualdades sociais, mantendo cursos
preparatórios para acesso ao ensino superior, capacitando cidadãos para atuar no
mercado de trabalho; oportunizando os menos favorecidos com mostras de filmes e
outras atividades educativas, sociais, culturais e artísticas. Parabéns Ong
“Pierre Bourdieu” ex- Holos – Cidadania para a Vida. Avante com esse belo
trabalho! Ah! Senhores leitores: o site (www.ongpierrebordieu.com.br), da
organização, está digno de visitação contínua e permanente.
Autor: Prof. Dr. Luiz Carlos dos Santos