Sobre o ENEM...

12.03.2010

Antes de discorrer sobre o tema é fundamental entender um pouco a sua história. O ENEM - Exame Nacional de Ensino Médio surge em 1998 com a proposta de avaliar a qualidade do ensino médio no Brasil bem como o próprio aluno, tendo como fundamento a aplicação de uma prova anual padronizada, ou seja, uma prova nacional. Muito diferente da maioria dos vestibulares, em que cada disciplina tem seu próprio caderno, no caso da prova do Enem não traz essa diferenciação. Mesmo porque a idéia é priorizar a interdisciplinaridade, a avaliação de competências, não apenas de conteúdo.

A proposta na sua concepção tinha, também, o propósito de fazer uma radiografia generalizada da formação dos estudantes do ensino médio no Brasil. É bem verdade que no inicio o exame aparece, somente, como auto-avaliação ou um grande “simulado”, já que a obrigatoriedade é desconsiderada pelo Governo (inclusive o novo ENEM) e pelas principais universidades brasileiras que não adotavam o ENEM como mecanismo de acesso. Fato este que não atraiu muito a atenção dos postulantes na época. Para se ter uma idéia em 2004 quando acontece o PROUNI a procura pelo exame passou de 100.000 pessoas, em 1998, para mais de 3 milhões de inscritos representando um aumento considerável.    

Outro fato relevante a destacar é que o ENEM nasce sob o signo da desconfiança seja por grande parte da comunidade acadêmica, seja por alguns movimentos sociais, a exemplo do movimento estudantil. Por compreenderem que este tipo de avaliação não seria capaz de acarretar modificações estruturais nas escolas brasileiras, sobretudo, nas redes oficiais de ensino o que se entendia como um jogo de cena por parte do Governo, à época, para mascarar a triste realidade da educação pública no Brasil.

É certo que a adoção deste novo modelo de avaliação dos saberes relativos ao ensino médio como elemento determinante para o ingresso dos estudantes nas universidades (públicas e particulares), constitui inovação necessária, preconizada e esperada por muitos educadores e de certa maneira pela sociedade, visto que há uma tentativa, no novo modelo, de democratizar as oportunidades de acesso às vagas públicas federais, possibilitando a mobilidade acadêmica até por que se trata de uma prova nacional e o postulante tem o direito de escolher qual universidade cursar no território nacional. O PROUNI, também, contribuiu muito na procura pelo o Exame, servindo, inclusive, como força auxiliar, pois, concede bolsa integral para àqueles que estudaram nas escolas públicas e se encontram em situação de adversidade econômica.

É visível que a importância do ENEM cresceu, significativamente, nesses últimos 11 anos. Há um esforço do Governo atual em fortalecer o projeto tornando-o um sistema completo de avaliação para quem sabe no futuro superar a cultura estabelecida nas redes, de base conteudista e tradicionalista. O próprio vestibular muitas vezes, um método atrasado de avaliar o estudante brasileiro, inclusive, a última proposta do ministro da educação Fernando Haddad é transformar o ENEM num substituto para o vestibular, uniformizando o currículo do Ensino Médio pelo país através da utilização dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais).

Muitas universidades públicas aderiram ao Exame para o vestibular de 2010, aqui na Bahia, por exemplo, todas aderiram, inclusive, o IFBA (Ex-CEFET) destinando 50% de suas vagas para àqueles que fizeram o ENEM. Recentemente o Reitor da UFBA assinou um convênio com a Universidade de Coimbra onde os alunos ingressos na Instituição pelo Exame Nacional do Ensino Médio, poderão fazer intercâmbio nesta universidade.    

O aumento qualitativo e quantitativo do ENEM não significa, porém, que o ensino público no Brasil é de excelência, não resta dúvida que melhorou um pouco, no entanto, falta muita coisa. É de suma importância priorizar as estruturas escolares, melhorar os salários dos profissionais da educação e dar mais condições para que o aluno carente possa permanecer estudando. Pensar o ensino fundamental não como um projeto de faz-de-conta mais como um instrumento de consolidação do saber. E as universidades como centros de produção e reprodução desses saberes a serviço da sociedade brasileira. Ainda precisamos muito repensar o ensino e a escola brasileira só assim estaremos dando passos mais consistentes para o futuro. Agora se me perguntarem sobre o ENEM, eu diria façam o ENEM...

Autor: Denis de Carvalho Silva Gama, professor de Sociologia e Presidente da ONG Pierre Bourdieu.

denisgama@ongpierreboudieu.com.br

 

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